terça-feira, 17 de abril de 2012

FÁBIO CÂNDIDO 
15 anos de luta por um sonho

Autor(a): Fernanda Bufoni Função: Repórter
Foto(s): Dirceu Garcia/Comércio da Franca 
Data: 19/12/2010
VOLTA POR CIMA - O presidente do Sindicato dos Sapateiros do Município de Franca, Fábio Cândido, diz estar pronto para pressionar os donos de fábricas e quer dobrar o salário da categoria nos próximos anos
Em outubro deste ano, o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Calçados do Município de Franca conseguiu sua carta sindical e passou a representar a categoria na cidade. O documento que chegou no mês passado às mãos do presidente da entidade, Fábio Cândido, deve por fim a luta pela liderança dos sapateiros francanos que se arrasta há 15 anos e atravessou todas as instâncias da Justiça brasileira. O outro sindicato, da Padre Anchieta, presidido por Sebastião Ronaldo, passa a reunir apenas os trabalhadores da Indústria Calçadista em outros municípios da região.
Apesar de se tornar oficial há poucos meses, desde março os vizinhos do sobrado simples na Rua General Carneiro, 677, - adaptado para servir como escritório do novo sindicato - passaram a ver o entra e sai de trabalhadores aumentar a cada dia. Foi nessa época, segundo Fábio Cândido, que as fábricas francanas passaram a ser orientadas pelo Ministério do Trabalho a encaminhar a documentação de seus funcionários à nova entidade.
Discreto em sua comemoração, Fábio Cândido faz planos para o futuro. Sonha em fazer com que o piso do sapateiro chegue a R$ 1,2 mil, mas sabe que não será de uma hora para outra. Com a tradicional pauta de reivindicações pronta, o líder sindical diz estar preparado para sentar à mesa com os donos de fábricas. A principal diferença, segundo ele, será na postura, na maturidade para conduzir as negociações. “Vamos ter enfrentamento, sim. Podemos até decretar greve, ir para os tribunais e tal, mas o respeito para o empresário eu tenho que ter”, disse ele.
O discurso do líder sindicalista hoje é oposto ao pregado por ele na década de 80, quando esteve à frente do sindicato regional. Em 1985, sob sua liderança, a entidade levou centenas de sapateiros às ruas em uma greve que durou um único dia e marcou física e emocionalmente o setor. Fábricas foram depredadas. O enfrentamento entre tropas de choque da Polícia Militar e manifestantes transformou a Praça da Capelinha em um cenário de guerra naquele dia 1º de fevereiro. “Me espancaram e me levaram preso para a cadeia. Antes, porém, me puseram em uma viatura da polícia e me levaram para o PS ‘Dr.Janjão’ para costurar minha cabeça. Levei uns sete pontos”.
Na mesma época, Fábio Cândido teve os direitos sindicais caçados e alguns meses depois embarcava para Cuba, onde passou cinco meses sendo treinado como liderança. De lá, emendou outras duas viagens para Venezuela e para a Colômbia. Em 1988, Cândido deixou a presidência do sindicato e se elegeu vereador, de olho na Câmara dos Deputados. Um acordo rompido pelo Partido dos Trabalhadores na última hora, teria deixado ele sem a presidência do sindicato e sem perspectivas políticas, em 1992. A volta por cima aconteceu este ano, com a obtenção do registro sindical.

Comércio da Franca -Quando você se envolveu com o movimento sindical?
Fábio Cândido da Silva - 
Fiz parte da Pastoral Operária. Meus pais vieram da roça e trabalho em indústrias de calçados desde os 14 anos. Passei por várias fábricas de Franca. Comecei passando cola, aprendi a pespontar e fui encarregado de seção, mas não me adaptei muito nessa função de ficar entre o trabalhador e o empresário, então, voltei a trabalhar como pespontador durante vários anos.
Comércio - E quando se tornou sindicalista?
Fábio Cândido - 
Nossa luta começou em 1982, quando fui presidente do Sindicato da Padre Anchieta. Fizemos aquelas greves memoráveis e tivemos o maior piso salarial de Franca.
Comércio - O que mais marcou os seis anos que você ficou à frente do sindicato?
Fábio Cândido - 
Lembro das greves e da intervenção que o sindicato sofreu em 1985. Os sapateiros foram massacrados pelas tropas de choque da Polícia Militar que vieram de outras cidades para reprimir o movimento. Tive os direitos sindicais caçados por 45 dias. Pouco depois o ministro do Trabalho à época, Almir Pazzianotto, veio a Franca e, em seguida, anistiou nossa diretoria, fomos os primeiros sindicalistas anistiados, antes mesmo dos de São Bernardo, que contavam com o Lula. No começo do ano passado, a Missão de Anistia reconheceu meu direito de anistiado político, pelo enfrentamento com o regime militar na época. Isso me enche de orgulho.
Comércio - E como começou esse período de greves?
Fábio Cândido -
 Em 1985, como não foram atendidas as reivindicações dos trabalhadores na campanha salarial, partimos para a greve. Foi uma paralisação de um dia só. Houve depredações e prisões de trabalhadores. Franca virou um praça de guerra. Pedro Berbel, que na época era representante do Ministério do Trabalho, foi o interventor. Para resistir, a gente formou um sindicato na cabana de São Benedito, na Vila Imperador. Nosso sindicato foi ocupado pelos militares.
Comércio - O que você se lembra do confronto?
Fábio Cândido - 
Em 1985, Sarney era presidente e Almir Pazzianotto, ministro do Trabalho. A greve foi em 1º fevereiro, data base da categoria. Os ânimos estavam muito alterados. Houve depredações. A polícia foi chamada e começou o confronto. Acabei preso.
Comércio - Como foi sua prisão?
Fábio Cândido -
 Estava na Rua São Paulo quando policiais da tropa de choque foram espancar um trabalhador negro que vestia uma camisa do Flamengo. Juntaram uns oito para bater nele. Eu vinha descendo no carro junto com o advogado do sindicato, fui intervir e me pegaram também. Me espancaram e me levaram preso para a cadeia, que na época era na Rua General Osório. Mas, eles não quiseram ficar comigo lá com medo de confusão e passeatas e me levaram para o Batalhão da PM, também no Centro. Antes, porém, me puseram em uma viatura da polícia e me levaram para o PS ‘Dr.Janjão’ para costurar minha cabeça. Levei uns sete pontos.
Comércio - E o manifestante você lembra quem era?
Fábio Cândido - 
Não lembro o nome dele, mas sei que à noite foi a família dele toda lá para... (se emociona e chora) agradecer. Se eu não tivesse chegado, eles teriam matado ele. Era cair da tarde quando eles chegaram. Me abraçaram. Foi um momento muito...
Comércio - Em 88, você foi eleito vereador, por que não se reelegeu em 1992?
Fábio Cândido -
 Houve uma briga dentro do PT, me desliguei do partido. Quando eu era presidente do sindicato, houve um acordo político com o pessoal que ia me suceder (Jorginho Luis Martins). Por eu ter sido o vereador mais votado da história de Franca, na próxima eleição sairia para deputado. Isso é o que ficou amarrado. A ideia era ampliar o espaço político. Deixei o sindicato e ampliei o espaço até a Câmara, mas, quando foi para eu sair deputado, eles não permitiram e lançaram outro nome. Saí do PT e fui para o PSDB, mas não tive os votos necessários para me reeleger vereador. Fiquei como 1º suplente. Houve um trabalho de queimação feito pelos antigos companheiros. E eu também não tinha o apoio da diretoria do sindicato porque tinha rompido com eles. Estava em outro partido, tinha perdido a base. O trabalhador se sentiu traído por isso. Eu era a cara do PT na época.
Comércio - E você tentou voltar ao sindicato. Por que não deu certo?
Fábio Cândido - 
Foi na eleição em 92. Montamos uma chapa para concorrer com os antigos companheiros, mas não permitiram que a gente concorresse, impugnaram a chapa. Alegaram que eu já não pertencia à categoria, mas, na verdade, eu mantinha meu registro como sapateiro normalmente. Fomos à Justiça para conseguir registrar a chapa. Registramos, mas, logo em seguida, ela foi cassada. Foi quando veio a ideia de fundar um sindicato. Eles eram uma organização eclética e a gente estava vendo que as perdas salariais vinham ocorrendo. Discutimos com um grupo de trabalhadores, entramos em contato com a Federação dos Trabalhadores Indústria do Vestuário do Estado de São Paulo. Eles falaram que como o sindicato da Padre Anchieta -que antes era específico só da categoria dos sapateiros de Franca - passou a abranger várias categorias e várias cidades, era possível criar um sindicato municipal. Então, no dia 31 de dezembro de 1994, às 9 horas realizei uma assembleia. Havia publicado um edital. Eles não pegaram porque estavam viajando para a praia. Não foram lá para votar contra. Fui a um cartório registrei o estatuto. Depois, eles ficaram sabendo e entraram na Justiça aqui de Franca, alegando que eu estava ferindo a unicidade sindical. O juiz aqui concordou. Recorremos ao Tribunal de Justiça. Lá, os desembargadores entenderam que era possível e derrubaram a decisão em primeira instância. Eles entraram com recurso e isso foi se repetindo até chegar no Supremo Tribunal Federal. Foram 15 anos...
Comércio - Quando a disputa entre os sindicatos começou, o Sindifranca (Sindicato das Indústrias de Calçados de Franca) praticamente declarou apoio a você?
Fábio Cândido - 
Discordo. A única coisa que o SindiFranca fez foi cumprir as decisões judiciais, porque ele é obrigado a negociar com o sindicato de acordo com a Justiça. E ela falou que quem representa os trabalhadores é o sindicato formado por Fábio Cândido, na Rua General Carneiro. Então, não tive o apoio deles. Eles apenas cumpriram o que a Justiça determinava. Obtive várias liminares que dizia “quem negocia é o Fábio”. Fui para a mesa de negociações este ano, não porque os patrões quiseram me levar, mas porque a Justiça determinou.
Comércio - Esse período que você ficou afastado - de 1994 até hoje - por onde você andou?
Fábio Cândido -
 Estava com o sindicato em funcionamento na Avenida Integração e vivia de apoio dos sindicatos ligados a gente. A Federação dos Trabalhadores do Vestuário do Estado de São Paulo mantinha essa minha sede, alguns funcionários e pagava meu salário e eu dava assessoria sindical como freelancer em alguns sindicatos, como o dos motoristas. Fiquei como assessor sindical enquanto aguardava a decisão da Justiça.
Comércio - Quando você acha que o sindicato estará estruturado?
Fábio Cândido - 
Hoje, nós estamos com o básico funcionando - o atendimento jurídico, homologações... -, mas para oferecer benefícios para a categoria só em abril, que é quando vão chegar as contribuições. E em Franca as empresas têm o hábito de acertar com o trabalhador no fim de ano. Este ano, uma grande fábrica da cidade demitiu 180 trabalhadores em dezembro para zerar o passivo trabalhista e recontratar em fevereiro. Pedi uma mesa redonda no Ministério do Trabalho para discutir essas demissões, mas choveu telefonemas. Os trabalhadores disseram que eu não podia fazer isso porque eles estavam precisando do dinheiro para poder ampliar casa, comprar carro, moto. Fui pressionado. Quer dizer, o trabalhador aceitou isso, que isso passou a fazer parte da cultura do francano.
Comércio - E quanto ao o banco de horas. Você é mais flexível?
Fábio Cândido - 
Sou radicalmente contra o banco de horas, mas acho que a postura do outro sindicato é que tem sido equivocada. Eles pelo menos tinham que fazer assembléia quando o tema aparecer e colocar qual a posição deles, mas não fizeram isso. Você trabalha duas, três horas a mais pelo valor de hora normal, sendo que se o trabalhador, em vez do banco de hora, receber em dinheiro, ganharia 50% a mais por cada hora extra trabalhada. E em feriados, 100%.
Comércio - Como você planeja atrair os trabalhadores para a briga?
Fábio Cândido - 
Vai ser um desafio para mim. Tenho aquele pessoal que participou da luta comigo e tem essa juventude que não está nem aí com a participação político-sindical. Vou ter que ver qual vai ser a linguagem com que vou chegar até essa juventude e mobilizá-la para participar das nossas assembleias. Vou ter que saber como chegar nesse pessoal. Já percebi que não é xingando. Tanto é que as últimas assembleias do sindicato que está aí foram um fiasco, esvaziadas. Vem um pessoal da Força Sindical fazer uma pesquisa de campo e analisar o perfil desse trabalhador. Baseado nisso, a gente vai fazer o trabalho e dar cursos de formação sindical. Mostrar para o jovem que é possível ter melhores condições de vida e de trabalho. Virão também mais militantes da Força Sindical para ajudar a gente nas assembleias, na mobilização e na panfletagem.
Comércio - Você se preparou para ser líder sindical?
Fábio Cândido - 
Em 86 fui para Cuba e fiquei cinco meses. Me capacitei para ser gerente sindical. Fiz dezenas de cursos pela CUT (Central Única dos Trabalhadores) e também internacionais. Fiquei no alojamento da Escola Lazaro Penha, em Havana. Eram cerca de 570 pessoas da América do Sul e África. Discutimos o comunismo, a parte de movimento sindical, mas vi que Cuba não praticava o verdadeiro regime. Era uma casta que chegou ao poder e dominava. A CTC (Central dos Trabalhadores Cubanos) falava tanto em segurança do trabalho e, no entanto, os trabalhadores de lá não tinham proteção nenhuma. Máscara para pó, óculos para a vista, fones para evitar o barulho, nada. Os gerentes sindicais andando de carro enquanto o resto da população estava a pé ou de bicicleta.
Comércio - Você também esteve na Venezuela. Quando foi?
Fábio Cândido -
 Foi no fim de 86. Fiquei 45 dias fazendo curso de formação em sindicalismo internacional. O sindicalismo que tem lá é por empresa e ligado aos partidos políticos. Cada partido tinha um sindicato, então, uma fábrica chegava a ter quatro, cinco sindicatos. Uma loucura, um modelo que para a gente também não serviria. E estive na Colômbia também, no começo de 87. Vi a realidade da Colômbia, a loucura que era lá com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). É um horror muito grande. Polícia armada para tudo quanto é lado. Eles eram bem mais politizados que nós e optaram pela luta armada. Vi a forma de organização sindical deles, um modelo que não servia para a gente no Brasil.
Comércio - E de todos os que você viu o nosso sistema é melhor?
Fábio Cândido -
 Aqui, nós mantemos a unicidade sindical, acho que o nosso ainda é o melhor. Tem setores que defendem o pluralismo sindical, mas a maioria ainda é contra. Mas, a sociedade francana não é organizada. Por exemplo, o Governo do Estado vai fechar várias escolas na cidade e cadê a Apeoesp que não reage? Cadê os professores? Cadê a sociedade participando, questionando?

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